Perfil: Como uma bailarina

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Os primeiros raios solares fizeram-se presentes no dia há pouco menos que uma hora. Dona Maria está de pé bem antes do surgimento dos mais diversos raios luminosos. Seus cabelos brancos entram em um contraste simultâneo com a luz  proveniente desses. Caminha com passos largos e firmes como quem tem certeza para onde está indo, mas busca manter o equilíbrio a cada passo. Carrega uma seriedade no rosto, como se uma nuvem de preocupação invadisse involuntariamente cada um dos seus mais remotos pensamentos.

Com a mão direita segura firme o balde no qual carrega comida pros seus animais, os quais cuida diariamente há, pelo menos, duas décadas, como se esse hobby fosse mais um trabalho, cumprindo horários e arcando com todas as preocupações. Com a mão esquerda tenta manter o equilíbrio do corpo, assemelhando-se assim com uma bailarina. Tenta manter o equilíbrio na busca de contornar seus problemas, de retirar de sua mente as tristezas que coleciona da vida, de um passado remoto que marcou uma infância na qual trabalhava ao invés de brincar, que cuidava dos irmãos mais novos e do lar, que ajudava sua mãe na roça para a fome não passar. Pela dor recente da perda do marido, esse a quem dedicou tanto respeito e amor ao longo de toda uma vida chora todos os dias. Chora entre curtos intervalos de tempo. Chora algumas vezes por uma fração de segundos, outras, por horas. As lágrimas escorrem pela sua face na busca de um dia cessar aquilo que denominamos de saudade. Uma saudade que nunca vai poder ser totalmente saciada. Seu amor nunca mais voltará. 

Maria continua a dar seus passos. Ergue sua cabeça com a obrigação de continuar a vida, por seus filhos, por seus netos, por seus bichos. Como uma bailarina, tenta buscar o equilíbrio e a cada passo almeja um novo sentido para a vida, tentando contornar os obstáculos já existentes. Continua a cada novo raiar do sol. A cada dia que a saudade vir. A cada dia que Deus conceder a dádiva de existir. O mundo não parará o seu curso normal de tempo para ver Dona Maria no estrelato. Mas no palco da vida ela continua, talvez com menos firmeza nos passos e uma maior lentidão, mas com o objetivo de seguir em frente até as cortinas do palco se fecharem. Dona Maria segue. Segue como quem não vê outra maneira a não ser seguir.

Paulina Oliveira

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