Biografia: Tiba - Das coxias às coxinhas

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Quem passa pelo setor dois da Universidade Federal do Rio Grande do Norte por volta das 14h, certamente encontrará um senhor de pele morena, de barba, óculos de grau e um pouco careca, vendendo salgados, chocolate quente, café, bolo e brigadeiro. O senhor retira da caixa de isopor dois tipos de cada salgado e coloca na estufa, põe sobre a mesa as travessas com bolos, e vários potinhos com molhos de variados sabores, montando assim sua venda na parada de ônibus. “Tenho que mostrar o que tem para vender, se não o pessoal pensa que não tem” comenta o senhor que traz no olhar um misto de ansiedade e alegria.

Simpático ao atender cada cliente, ele fala manso e sorridente. Esequiel Pereira Tibúrcio, o Sr. Tiba, como é carinhosamente chamado, carrega uma bagagem que nem o mais perspicaz dos observadores seria capaz de imaginar. Quem vê o senhor de 59 anos que hoje vende salgados na UFRN, não imagina que ele tem uma historia de 35 anos com o mundo do teatro. 

Nascido em São Paulo capital, residente do bairro de Santo Amaro, Tiba não tem nenhuma graduação de nível superior, apenas o ensino médio completo. Entretanto, possui uma grande formação empírica na arte e no mundo do teatro.  Seu pai era iluminador, e desde cedo aprendeu com ele o oficio, como também outros que rodeavam a profissão de seu pai, som, cenário, na convivência, observava e acabava aprendendo um pouco de tudo.  Iniciou sua vida no teatro ainda muito cedo, aos 17 anos, enquanto ainda trabalhava dirigindo uma Kombi. Num encontro casual com um amigo que trabalhava fazendo iluminação no teatro, foi convidado pelo mesmo para ir assistir peça “Golpe sujo” não da plateia como os demais, mas sim da cabine em que o amigo trabalhava no controle dos efeitos do espetáculo. No dia do espetáculo, Tiba foi ao encontro do amigo. Ao chegar lá, foi direto para cabine junto com seu amigo, onde ficavam o diretor da peça, o seu amigo e um rapaz que trabalhava no controle da mesa de som. Aconteceu que o tal rapaz que devia controlar o som do espetáculo, havia bebido um pouco além da conta e não teve mais condições de administra-la. O amigo sugeriu para o diretor que o Tiba saberia mexer na mesa de som, e que com o roteiro em mãos ele conseguiria ajudar. Foi aí que o Tiba entrou em ação.  Ao ser solicitado como sonoplasta, fez uso da experiência adquirida com o pai e desempenhou muito bem a função. “Depois disso, não parei até vir pra Natal”, conta.

 Em 1974 foi descoberto um talento para a produção de palco que perduraria por mais de 30 anos.  Aos poucos ele foi se envolvendo com aquele mundo e desabrochou vários talentos para produção de palco. Tornou-se técnico em espetáculos e diversão, e passou a atuar como chefia de produção, produzir e montar cenários para diversas peças teatrais e espetáculos.  Tibúrcio produziu peças e cenários famosos como “O Fantasma da Opera”, “ Qualquer Gato vira-lata” na primeira formação da peça com Rita Guedes, Tuca Andrada e Filipe Folgosi, antes da criação do livro e de virar o filme. Ao perguntarmos sobre sua carreira nos palcos, nos revelou o carisma de personagens famosos como Suzana Vieira em que, com os olhos semicerrados e testa franzida ao tentar lembrar de outros detalhes, nos contou que ao pedir uma foto com a mesma, recusou o registro fotográfico como se fosse a um fã, mas o convidou a seu camarim e tratou-o como amigo; Arlete Salles, com quem viajou por um ano em turnê pelo Brasil com um de seus espetáculos; Maria Della Costa, em que inspirou-se em sua garra e motivação aos serviços de palco, mesmo limitada pelo tempo, com seus 82 anos de idade.

Certamente foram tempos de ouro. Contou-nos sobre um Brasil, agora, desconhecido. Lembrou de fatos como a passagem de sua Kombi cheia de artigos cênicos que passara sobre a ponte localizada em Florianópolis no estado de Santa Catarina, hoje um patrimônio histórico tombado com noventa anos de criação, a Ponte Hercílio Luz.   Em 1982 a ponte foi fechada para o tráfego, reaberta em 1988 para tráfegos leves como pedestres, bicicletas, mas em 1991 foi proibido todo e qualquer fluxo. Tiba conta com emoção o fato, a quem assiste suas descrições estruturais da ponte e a importância de conhecer o Brasil dourado, passa-nos a sensação de que vivemos juntamente com ele.

Entre o atendimento de um e outro cliente em sua mesa de lanches, Tiba sorri ao relembrar sua aparição como ator em peças nos quais também serviu de contrarregra e produtor de palco, diretor de cena, ou cenógrafo. Foi garçom na peça produzida por Juca de Oliveira e com direção de Bibi Ferreira, Qualquer Gato Vira Lata, que foi sucesso nacional e dada sua proporção acabou se tornando livro em 1998 e filmes em 2011 e 2015, marcou a história do homem que agora com uma luva plástica na mão direita, nos mostrava o valor do serviço longe dos palcos. “Eu não colava a bandeja na mão, então teve vezes em que a bandeja caiu de verdade e foi sujeira pra todo lado”, cita ao relembrar a importância de seu papel.


Seu Tibúrcio participou também de peças como "A cabra ou quem é Sylvia?" de Jô soares, “3 intenções”, "Trair e coçar é só começar" e conta com muito entusiasmo o nome de cada ator famoso que estrelou em cada uma delas. Outro trabalho muito envolvente foi a peça “A partilha”, escrita por Miguel Falabella em 1996 em que também trabalhou com a atriz global Arlete Salles, que se tornou amiga pessoal de Tiba. Enquanto falava desse trabalho, relembrou a vez em que uma universitária de teatro do DEART – UFRN, ao anunciar uma peça para o Sr. Tiba, não se interessou por sua história quando ele soltou a informação de que já havia trabalhado com teatro. Nesse momento, como estudantes de jornalismo, nos sentimos sortudas por estarmos sentadas naquele banco de pedra da parada do setor dois, ouvindo as mais alucinantes histórias e aventuras. Nossos dedos se moviam inquietos por escrever tudo o que tínhamos ouvido. Certamente aquelas estudantes perderam um momento muito construtivo para a carreira delas, e nós não pretendíamos fazer o mesmo.

Esequiel Tibúrcio, o Tiba, construiu sua história no teatro por trinta e cinco anos.  Casado há trinta e quatro anos com “Tuta”, cujo apelido deu origem ao negócio, Tuta Lanches, tiveram quatro filhos, um casal de gêmeos (1983) em que um é produtor de eventos e a outra é uma química, o do meio (1985) que decidiu seguir a carreira como agenciador cenográfico e o caçula (1987) que se formou em jornalismo e decidiu seguir profissionalmente na área burocrática e administrativa na fábrica Vitarella. Ele conta orgulhoso que dois de seus filhos homens, seguiram sua carreira na administração dos palcos. Quando seus filhos resolveram seguir a carreira do pai, como cenógrafos ou produtores, abriram uma empresa e colocaram seus nomes, mas não obtiveram muito sucesso, resolveram então mudar o nome da empresa e sua o nome do pai, e então surgiu a “Tibúrcio produções”. Foi ai então que conseguiram notabilidade. “meu nome é conhecido nos teatros de são Paulo, meus filhos viram que com o nome deles não estava dando certo e usaram o meu, e então foram procurados e não param de trabalhar” conta ele com um sorriso de satisfação estampado no canto da boca. A ultima peça de que fez parte como produção e palco e cenógrafo, foi “ A partilha” o ultimo espetáculo foi na capital do Rio grande do Norte, lugar de origem que adotou para uma vida mais tranquila.

A rotina dos palcos começou a pesar na vida do senhor Tiba, as longas viagens para realizar espetáculos e os longos anos se dedicando a essa arte aos poucos foram caindo na monotonia e após uma reflexão ele resolveu que estava na hora de dar espaço para outras pessoas e buscar um outro rumo em sua vida, assim decidiu juntamente com sua esposa que iriam morar em Natal, ao longo de 14 anos entre idas e vindas à capital do Rio Grande do Norte, após uma batalha incansável conseguiu construir sua moradia e fixar residência, mais um sonho concretizado em sua vida. Seu Tiba comenta com convicção que amava o teatro, mas não se imaginava trabalhando em algo tão cansativo até o último dia da sua vida. Depois de viajar o país inteiro e ter em sua mente os mais marcantes momentos que alguém poderia ter, ele confessa que o que queria mesmo era poder descansar e poder caminhar pela praia no final de semana, coisa que nem São Paulo, nem a vida conturbada no teatro poderiam proporcionar. Seu Tibúrcio acreditava que teria uma vida mais tranquila na terra Natal da sua esposa, com quem está casado há mais de 30 anos.

Há pouco mais de três anos morando em Parnamirim, cidade localizada na região metropolitana de Natal, ele e sua esposa resolveram abrir uma lanchonete, mas que não conseguiram manter, pois a venda era pouca. Ao convite de um filho de uma amiga de sua esposa, Seu Tibúrcio resolveu ir vender na UFRN, e a venda que antes era pouca, até hoje é sucesso total. Quem passa por ali e vê o salgado preparado pela mulher de Tibúrcio não resiste e compra. O movimento é tanto que surpreende o senhor, dono de uma simpatia tão grande, que não para de conversar com a gente enquanto atende várias pessoas ao mesmo tempo. “Achei que sairia do teatro para descansar, mas o movimento continua como vocês podem ver”, comenta o senhor com um largo sorriso no rosto.

Agora em uma parada de ônibus, longe dos palcos e das emoções que levava consigo na Kombi que andou o país inteiro, Tibúrcio monta mais uma cena na história da sua vida. Não uma cena de uma novela ou de uma peça teatral, mas a de montar sua venda na parada de ônibus de uma universidade. Uma cena muito diferente das inúmeras que já montou em toda sua vida, mas tão importante quanto qualquer uma delas.

Biografia realizada para a disciplina de oficina de texto III do curso de Jornalismo.
Produzida por Paulina Oliveira, Fernanda Cristina, Gemyma Medeiros, Nayanne Rodrigues e Ana Laura.

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1 comentários

  1. OOOOOOOOI PAULINA

    é realmente inspirador conhecer esse tipo de história de vida <3 você fez um trabalho de muita sensibilidade com esse texto

    beijo
    beinghellz.com

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