Crônica: Terra das dunas, do sol e da insegurança

10:00

Foto: Ney Douglas

São 10:20 da manhã. Estou finalizando a minha primeira pauta do dia. Nela, mostrei o trânsito da cidade, conversei com a população e pude perceber o clima de insegurança que estava nos olhos de cada uma daquelas pessoas. A pressa pra voltar pra casa reinava, já que numa cidade onde a segurança é inconstante, tudo que mais se deseja é estar no conforto e proteção do lar. Assim que entro no carro para voltar à redação do jornal recebo uma ligação. Outra rebelião se iniciava na penitenciária de Alcaçuz. A equipe não pestanejou e corremos para lá. Precisávamos colher a informação de perto e deixar a população informada. É pra isso que o jornalismo serve, né? ser um canal entre as informações e o público.

Este já era o sexto dia de tensão na maior prisão do Rio Grande do Norte. Duas facções criminosas, o PCC e o Sindicato do crime do RN, estavam se confrontando. Somente no último final de semana, 26 detentos tinham sido mortos, a maioria decapitados. O estado já não tinha mais controle do local que é de sua responsabilidade. Chegamos e corremos com nossos equipamentos. O "quebra pau" estava rolando. O barulho era muito intenso. Foi a primeira coisa que ouvi e vi. Tiros por todo o lado. Os policiais na guarita tentavam controlar o confronto, quando uma facção ficava próxima da outra os tiros de borracha minimizavam a situação. 

Minha miopia dificultava a observação, mas não tinha dúvidas que aquela era a melhor definição de guerra que pude encontrar na vida. Dois lados que buscavam destruir o outro, a qualquer custo, de qualquer maneira. Pela distância, mal conseguia distinguir um preso de outro, muito menos seus olhos, mas se pudesse enxergar de perto o olhar daqueles homens, eu diria que eles tinham sede, sede de vitória, de destruir o outro, de salvar a própria pele. 

O sol do meio dia irradiava por aquele amontoado de dunas e vegetação seca. Muitos jornalistas estavam ali fazendo a cobertura para seus veículos de comunicação, alguns sem dormir direito desde o início da rebelião. Buscavam o melhor lugar, o melhor ângulo, sem deixar de lado a precaução com a própria vida. O som de motos imergiu no meio do barulho dos tiros, assim como o choro de quem estava nelas. Duas mulheres, esposas de presidiários, gritavam e choravam muito vindo em direção à imprensa. O marido de uma de suas amigas, que também estava em Alcaçuz, tinha acabado de levar um tiro na cabeça. Elas protestavam contra o governo, ao mesmo tempo em que pediam misericórdia pela vida de seus parceiros.

Após colher os depoimentos. Corremos para as dunas, onde se concentravam ainda mais jornalistas, e  onde teríamos uma visão mais ampla dos acontecimentos. A areia quente atingia nossos pés, assim como os galhos da vegetação esbarravam em nosso corpo, não havia tempo para pensar, a informação tinha pressa e nós precisávamos estar à par delas. Os tiros se encerravam, mas em frações de segundos voltavam à tona. Pedras eram arremessadas de um pavilhão para outro. Um, dois, três tiros seguidos. A paz naquele local era um adjetivo inutilizado há algum tempo.

A sede por informação tomava conta das pessoas ali presente. Muitos eram os boatos, poucas as confirmações. Passei poucas horas em cima daquele morro observando a situação da penitenciária de Alcaçuz, mas a sensação era de que muito mais tempo tinha se passado, e de que aquelas imagens que estavam diante de meus olhos nada mais eram do que verdadeiras repetições. A sensação de impotência tomou conta de mim. Meu maior medo era a incapacidade de manter uma informação em tempo real sem me equivocar. O medo não me dominou, mas ele segurou meus braços, coisa que o estado foi incapaz de fazer, até o momento, no caos que o Rio Grande do Norte passa hoje.

São tempos difíceis na terra das dunas, do sol, e mais do que nunca, da insegurança.

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